terça-feira, 23 de outubro de 2012

Duas cartas suicidas


 (ou como o mundo acabou)

Morte do apartamento
O cheiro do fumo  adormecido em cada aresta da sala e em cada dobra do tapete e em cada vinco do meu rosto. Já há uns seis dias tem uma massa verde como bolor, crescendo no teto, me seguindo e pulsando, parece cada vez mais pesada, ainda cai em cima de mim. O calor sufoca. Mantenha a janela fechada. Os mosquitos entram e as pessoas ficam lá fora. Deve ser também há seis dias que não saio daqui.
 No primeiro dia olhei pra fora. É engraçada a sensação de estar observando as pessoas e ser observado, via que algumas me notavam. Não como muito, pães velhos e leite. Vai tudo rápido para não sentir o gosto. O leite cria uma bola papada de pão, gruda alguma coisa no dente, é desagradável. Meu rosto no espelho parece muito com o do meu pai. Ficar só de cueca dá liberdade.  A massa verde em cima da minha cabeça fede e a cama também tem fedido, tem umas manchas do meu suor. Mas a janela precisa ser mantida fechada.
Aquela torrada descansa em cima da mesa há uns doze dias, a quantidade de formigas é imensa. Tem um café do lado, ele coagula, lembrar do gosto de café gelado me perturba, mas a toalha de mesa de natal alegra.  Em quanto tempo as formigas terminariam minha torrada? Tanto faz.  Nos banqueteamos eu, elas e a torrada. O leite faz a papada.
Tenho cheirado a mofo.  O bolor ainda me segue e pulsa compassado. Um dia cai.

Morte do conto
Ele tilintava com dedos ágeis sobre a mesa e sobre o papel em branco, fazia lascas na madeira,  escrevia, rabiscava: Eu, que sou o mais ignóbil dos homens, não, não é assim que se começa. Dedicatórias a si mesmo. Os papéis rasgam no ranger dos seus dentes. As folhas secas que caem lânguidas sob meu pé, meu andar compassado.  Não.  Pense em outra coisa. Não pense.  

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