(ou como o mundo acabou)
Morte do apartamento
O cheiro do fumo adormecido em cada aresta da sala e em cada
dobra do tapete e em cada vinco do meu rosto. Já há uns seis dias tem uma massa
verde como bolor, crescendo no teto, me seguindo e pulsando, parece cada vez
mais pesada, ainda cai em cima de mim. O calor sufoca. Mantenha a janela
fechada. Os mosquitos entram e as pessoas ficam lá fora. Deve ser também há
seis dias que não saio daqui.
No primeiro dia olhei
pra fora. É engraçada a sensação de estar observando as pessoas e ser observado,
via que algumas me notavam. Não como muito, pães velhos e leite. Vai tudo rápido
para não sentir o gosto. O leite cria uma bola papada de pão, gruda alguma
coisa no dente, é desagradável. Meu rosto no espelho parece muito com o do meu
pai. Ficar só de cueca dá liberdade. A
massa verde em cima da minha cabeça fede e a cama também tem fedido, tem umas
manchas do meu suor. Mas a janela precisa ser mantida fechada.
Aquela torrada descansa em cima da mesa há uns doze dias, a
quantidade de formigas é imensa. Tem um café do lado, ele coagula, lembrar do
gosto de café gelado me perturba, mas a toalha de mesa de natal alegra. Em quanto tempo as formigas terminariam minha
torrada? Tanto faz. Nos banqueteamos eu,
elas e a torrada. O leite faz a papada.
Tenho cheirado a mofo. O bolor ainda me segue e pulsa compassado. Um
dia cai.
Morte do conto
Ele tilintava com dedos ágeis sobre a mesa e sobre o papel
em branco, fazia lascas na madeira, escrevia, rabiscava: Eu, que sou o mais
ignóbil dos homens, não, não é assim que se começa. Dedicatórias a si mesmo. Os
papéis rasgam no ranger dos seus dentes. As folhas secas que caem lânguidas sob
meu pé, meu andar compassado. Não. Pense em outra coisa. Não pense.
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