Permanecia agachado há três ou quatro horas, não sabia dizer ao certo. Se posicionava entre a cama e a janela, a cabeça ligeiramente projetada para frente, mas impossível de ser vista do lado de fora, na rua.
A espero. Todo dia pelas cinco horas da tarde ela passa. Menos sábado e domingo. Vinte pras cinco agora. Meu cérebro manda um hormônio qualquer de ansiedade e ele vai direto pro pau, que sofre de um doloroso priaprismo desde a uma da tarde. Tenho trinta segundos pra gozar com suas pernas e sua bunda. Perfeitas e brancas. Depois disso ela sai do campo da janela. Há algum tempo atrás eu consegui em dezoito segundos. Meu recorde.
Ele fazia isso há três meses, talvez um pouco mais. Se lembra da primeira vez que a vira, usava um vestido com flores amarelas. Bonito. Ele pensava em se matar e ela andava com flores no vestido.
Não sei como me mataria, mas queria manter uma ereção depois de morto. Talvez impressionasse alguém. Talvez fizessem um caixão especial. Talvez aparecesse no programa Medicina Extraordinária. Talvez algum tarado desse a última chupada no necrotério. Talvez alguém sentisse inveja. Talvez... mas morte e pau duro não combinam. Suicidas que moram no primeiro andar são os mais frustrados. Daqui até lá se quebra uma perna no máximo. -- Dez pras cinco.
Era um bom fim de tarde. Agradável, sem muito calor. O sol se punha atrás dos prédios da rua oposta ao seu. O quarto já se enchia do laranja morto que engolia a escura madeira puída, que se alvoroçava com os passos-roedores preparados para a noite virulenta. Um prédio pequeno e velho.
Nada de novo. O pôr do sol continua o mesmo desde sempre. O apartamento sempre foi abafado, a madeira sempre cheirou mal e o cobertor esburacado sempre está molhado de suor. Eu durmo pelado. Eu ando pelado. Essa sempre foi a minha maior ambição quando morava com meus pais: andar pelado pela casa. Nunca foi permitido, meu pai devia se sentir inseguro, ou eu gosto de acreditar nisso. – Cinco horas. Ainda duro. Tenho trinta segundos.
Ele se projeta um pouco mais, quase encosta o corpo todo na parede. A mão em posição. Que vestido será que ela usa hoje? É melhor que seja vestido, o verde sempre foi seu preferido, apesar de sempre parecer sujo. – Cinco e cinco. A qualquer momento agora.
O mais tarde que ela já passou foi cinco e meia. Pois que ela não fizesse isso de novo. Duas vezes ela não passou, uma terça e uma sexta. Inventou uma história para as duas, naquela terça ela levara seu filho mais novo para o médico, nada demais, doença de criança, uma coceira na bunda cheirando a talco e merda. Não gosto dos filhos dela. – Cinco e vinte.
Já era a terceira vez que fazia por alguém da janela. A primeira, uma senhora com ares de ricaça, usava vestido branco e colado com umas jóias feias. Tinha uma barriga pra fora e uma bunda muito pequena, mas eu gosto de desproporcionalidades. Era bonita, mas só passava duas vezes por semana. A segunda era mais bonita ainda, usava chapéus azuis. Nunca a vi sem chapéus. Pernas fortes. Tinha um ar maternal. A terceira era diferente, gostava mais. – Cinco e meia.
Agora. Trinta segundos. Rápido, rápido. O quadril vai e vem. Está de vestido novo, azul, umas flores verdes e azuis, verdes e azuis, verdes e azuis, sempre na mesma ordem, mesma proporção. Vai e vem. Foi. E ela continua desfilando. Provavelmente pensando na bunda do filho. O pau dói. Meu recorde. Dezesseis segundos.
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