“A vida não me é mais um vício.” , dizia-me o homem que um dia chamei de pai. Depois disso ficamos os dois calados; um silêncio que só era cortado pelo barulho compassado da máquina que o ajudava a sobreviver - tem mais alguns dias, segundo o médico. Pensativos, fitávamos um ao outro. De quando em quando ele molhava a boca de saliva, que já lhe era escassa.
“Sabe, filho...”- disse tomando fôlego, sua respiração era frágil- “eu descobri aqui, nessa semi-morte, que depois de tanto viver, eu verdadeiramente nunca amei.” – falava enquanto se acomodava àquela cama. O ambiente era pesado e gelado, mas aquele homem na minha frente se descobria ali, no seu leito de morte.
Tomou mais fôlego, dessa vez maior e mais difícil. Olhávamo-nos. “Mas eu sonhei, filho, sonhei mais do que meu corpo pôde agüentar. Quem sonha não pode ser mau, pode?” – Achava ali o conforto da sua alma antes da morte. Não respondi, dei-lhe um beijo na testa e saí do leito. O cheiro, a saliva, a máquina e toda aquela comoção não me faziam bem. Mas lembro ainda que, antes de sair, ele gritou alegre: “Afinal, como dizia o poeta: todos os sonhos do mundo para quem nunca amou!” – E essa era a sua compensação.
Morreu no dia seguinte.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário