sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Família

A luz bruxuleava pelas frestas da persiana agitada e se imprimia na parede branca opositora e em alguns dos poucos móveis. Aqui e ali o teto aparecia maltratado pela infiltração verde-musgo.

Na mesa, um café que com rapidez coagulava e esperava ser bebericado numa xícara rosada com flores, e uma toalha quadriculada de plástico com desenhos de abacaxis, maçãs e melões descriteriosamente dispostos.

O apartamento tinha dois cômodos. O fogão engordurado ficava ao lado da cama e mesinha de cabeceira e, do outro lado de uma parede, um vaso sanitário, um chuveiro e uma pia. Não havia nada que delimitasse. Um pano azul velho servia para intermediar o acesso à sala e enxugar o corpo.

Um homem descarnado movia-se na cama sobre uns lençóis esburacados, com um porta-retratos na mão.

Na sujeira, eu, com a foto que não é minha. Um casal corre na praia, são felizes. Eu não sou aquele homem, mas finjo. São modelos. Modelos de porta-retrato.

O forte cheiro da fumaça dos carros infesta o apartamento e os ônibus e caminhões que passavam na rua de frente o faziam tremer.

A mulher na foto excita a mim, agora também um modelo barato. Ela tem o sorriso provocativo e seios que balançam com firmeza enquanto corre. Masturbo-me eu, que não tenho foto minha na mão e nem em lugar nenhum, agora só a satisfação de outra vida, que também é minha e por mim idealizada.

Me levanto com moleza preguiçosa, o lençol está empapado com meu suor, meu corpo demarca-se. O dia era quente e a atmosfera empurrava junto à gravidade os corpos para baixo. Moscas zumzumzavam-se e pousavam na sua testa suada. Eu espanto os incômodos bichos com safanões aleatórios no ar. Sento-me à mesa e bebo do café gelado. Trajava cuecas beges.

Baixo a cabeça. O café me dá náuseas e meu quarto lembra o inferno. O ambiente oprime espírito. Olho, pela persiana carcomida, a rua. Os carros e pessoas passavam com aborrecimento e vagarosidade.

Levanto-me e vou até a pia. Tiro um pão de forma do saco, corto os pedaços comidos pelo bolor e com cuidado passo a manteiga para não esfacelá-lo.

O pão, apesar de indigesto, controla a minha fome. Ao chão, vejo um pequeno espetáculo: Uma barata não muito grande, provavelmente ferida, encontra-se com sua casca virada para baixo e convulsiona-se tentando se desvirar e desprender-se das vorazes formigas que comiam-lhe as carnes. Via o espetáculo com nojo e satisfação. Eu e minha irmã sofríamos. Não interrompo, porém. Sacio-me da barata, das formigas e do pão. Vou ao banheiro lavar o suor do rosto e limpar-me do recheio branco da barata que agora extravasa de todos os poros do meu corpo.

Era corpulento e peludo. Nas costas, manchas vermelhonas e chagas antigas. A pele tinha aspecto podre e fedia a desolação enfungeada. Na cara, marcavam-se depressões por todos os lados, resultados da puberdade antiga. O passo era lento, a perna defeituosa.

Ao espelho, outro que não eu. Venho tornando-me semelhante de meu pai. A imagem refletida não agrada. Esfrego o rosto com desespero raivoso, o sabão atinge os olhos que se irritavam, vermelhos. Molho o cabelo bagunçado e escasso. Seco o rosto na toalha que solta fiapos azuis.

Lá fora, o dia transformava-se em noite e eu penso na família, eu, que tenho uma modelo de porta-retratos e uma barata da qual só sobra o exoesqueleto no chão da minha cozinha, que ficava logo ao lado da cama.

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