Acordo, ou pelo menos metade de mim o faz. Tento tomar por conhecimento todos os objetos do meu entorno. Um indomado feixe de luz sempre aceso desafia a madrugada pela fresta da porta. As colchas suam, as paredes ofegam e as madeiras se esticam e contorcem em sinfonias arranhadas e agudas. As coisas finalmente acham seu lugar no espaço, rearranjadas conforme o costume da vista.
Levanto. Deixo a cama em seus sonhos de gigantes montanhas de dobraduras lençolinadas e uma mancha impressa de minha silhueta aquosa. O quarto se encontra em estado de abafamento inebriante, as janelas fechadas. As pálpebras pesam do peso atmosférico e do sono ainda indesperto. Os pés descalços se arrastam com dificuldade pelo microcosmos carpético, cheio de fungos e doenças. Os joelhos se dobram, desobedecem, não me confiam a postura.
Agarro com rigidez triunfante e cansada a porta de maçaneta dourada e escancaro-lhe as faces. Da cozinha saía a luz que agora passa a transbordar o quarto e fere-me os olhos com flechas e lanças amarelas. Inicio a busca pelo copo d’água. Atravesso a sala em passos lentos. A organização dos cômodos se dispunha de tal forma que apenas metade da sala, meu quarto e a cozinha ficavam iluminados, a outra metade da sala e o resto da casa, ou seja, todo o lado direito ficava sob um véu umbroso.
Entro de súbito na cozinha, meus pés descalços sentem o choque dos azulejos frios e cruéis. Mas não. Estou à porta do quarto! Exatamente onde me encontrava há alguns segundos atrás, encarando a cozinha.
Desentendo, fixo os olhos no caminho e tento adivinhar o porquê da alucinação. Orpheu parecia ter me pregado uma peça. Mas eu estava ali! Logo ali, na cozinha! E senti sua opressão característica de cozinhas na madrugada e senti seu azulejo azul que traz desassossego aos pés desacostumados. A lógica me fugia. Escapava-me pelos dedos explicação coerente, mas, qualquer que ela fosse, precisava me mover, fosse essa a primeira vez ou não.
Cravo-me destro à frente do umbral da sala. A luz esvai-se. Súbito. Só sinto um tapete. O resto se cobre. Avanço desconfiado para o que acredito ser uma parede. Tateio sua pintura descascada em busca de um interruptor. O clique ressoa. Em meio aos borrões luminosos, reparo com o terror incrédulo de um mundano do Velho Testamento atingido pela fúria divina, que estava em outro quarto da casa. O quarto que ficava no lado indesbravado pela luz da cozinha. Duvido de minha consciência. Um grande armário de madeira que já apresentava os estragos feitos por pragas invisíveis, uma estante de estudos, um tapete purpúreo puído, uma cama fraquejada pelos anos. A janela fechada, a cortina. Tudo ali. Estava em outro quarto.
Certamente caí no sono ali mesmo; e o episódio da cozinha fora um sonho dentro de outro; agora acordado, consigo vislumbrar todo o encadeamento de fatos: Vim para este quarto a procura de algo que não lembro e, por cansaço, deitei-me. Um quarto estranho pode instigar os pesadelos e pensamentos mais pesados no espírito. Sim, fora um pesadelo. Mas como, se me lembrava de todos os minutos anteriores ao sono com clareza: De como deitei na minha cama, sim! Na minha! E como li e descansei a vista no teto, como fechei a janela por causa do vento e depois me afoguei entre travesseiros e lençóis e como fora real o tortuoso caminho pela escuridão e como as pernas fraquejaram e como senti medo ao vir parar aqui?
Acontecido ou imaginado, é mister sair. A cozinha agora é onde mora todo meu raciocínio, onde minha mente recobrará seu lugar e eu poderei enxergar as coisas com clareza .Melhor crer na lógica. Então saio.
Entro no corredor com desconfiança, mas nada acontece. O corredor levava à sala e, ao seu fundo, não vejo nada além da luz que sai da cozinha. Essa luz me enche de expectativa e ansiedade, era um corredor estreito, opressor. Esmaga meu espírito de incertezas. Meu passo é rápido, mas completamente instável. As paredes parecem fechar e me afastar da luz. Já quase corro. Ultrapasso.
Nada! Absolutamente nada! Um vazio expulsou o espírito. Ele estava cheio de inexistência, de negação. Só sentia um frio que extravasava pelos poros, que escorria pelo corpo. Me delimito. Geografizo meu corpo, acho meus membros, a consciência volta turbilhante, sai da inércia com fúria. Estava no banheiro.
O piso com pastilhas azuis quebradas, a toalha branca desgastada pendurada, o chuveiro, os cheiros, a sensação de se estar sempre molhado, úmido, o vaso, a pia manchada de pasta de dente, um armário com pentes, escova e cremes. Um espelho. Fico parado defronte dele, lavo meu rosto com força, meus olhos ardem com o sabonete. Sou eu. O rosto cansado, desgastado, marcado.
Sento-me no chão molhado do banheiro. A cara e cabelo empapados de sabonete. Penso nas razões. O sonho se repetia pela terceira vez. Quando eu poderia acordar? Os caminhos parecem se conectar e desconectar, o apartamento corrompia o espaço, caçoava, infringia. E as sensações, elas também se misturavam. O insólito depravava a realidade. Mas estou cansado. Cansado demais para pensar, sabotar o que me parece tão real e achar explicações. Levanto.
O medo é corrosivo e eu duvido até da verdade do chão, ou principalmente de sua verdade. Todo próximo passo era errante, eu não dominava. Mas saio. Mais um corredor. A luz da cozinha é fraca, quase não se enxerga. É lá que devo chegar.
Preso. Com a sedutora luz da cozinha borrando a íris. Estava destruído, arrasado. Cama, armário, carpete. Tudo! É meu quarto. Estava cansado, sem alternativas. Já não era senhor. Fui destronado.
E encaminhado por astúcia satânica, convencido por voz arguta, levanto com o espírito frágil, e ergo a janela com rapidez desesperada. Cai à porta da sala.
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